sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Estamira

O documentário é uma obra do fotógrafo brasileiro Marcos Prado, aborda a história de uma senhora de 63 anos. Seu nome, Estamira, vivia e trabalhava no lixão de Jardim Gramacho bairro de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, por mais de vinte anos. Sua vida é marcada por tragédias e aborda questões que vão da miséria a loucura, o autor nos convida a rever conceitos já formalizados, nos faz repensar sobre o que realmente seria sanidade ou insanidade.

Vítima da desigualdade social, a prostituição lhe é imposta aos doze anos como forma de sobrevivência, permanecendo até os dezessete. Saindo, casou-se duas vezes, foi traída pelo os dois maridos, com o primeiro teve dois filhos, o segundo fez com que ela internasse sua mãe em um sanatório. Foi expulsa de casa, devido sua agressividade, conseqüência da descoberta das amantes do cônjuge, que lhes eram apresentadas como supostas amigas em sua própria casa. Violentada sexualmente por duas vezes, passou então a ter alucinações, instabilidade emocional, desordens na personalidade e dificuldades nas relações interpessoais. Se outrora muito religiosa, passou desde então, a desacreditar na existência de um Deus, demonstrava revolta contra aqueles que ousassem pronunciar seu nome, desconsiderando qualquer pessoa. Mergulhada em seu sofrimento e sem escolha foi viver no lixão. Demonstrando conhecer o algoz que a transformara em um ser marginalizado, marcada pelas seqüelas da vida, tornou-se uma mulher revoltada e amargurada.

Seu filho tentou interná-la por diversas vezes, alegando tratar-se de problemas no sistema nervoso, discordado de sua irmã que temia passar pelo mesmo sofrimento da mãe ao internar a avó, que não fora bem tratada. Apesar dos transtornos psicológicos, ela transita entre os dois mundos, real e “insano”, deixando sua família apreensiva, sobre como tratá-la.

Observando seu quadro patológico o autor nos leva a fazer uma reflexão de como uma pessoa que demonstra loucura, consegue ao mesmo tempo, ser consciente em seu discurso, admirando a todos com suas interpretações filosóficas, mostrando ser uma mulher lúcida explicando fenômenos humanos de forma eloqüente, sendo ao mesmo tempo questionadora. As alucinações tornam-se um ponto de fuga, de uma realidade desesperadora e cruel. Perturbada mergulha dentro de si mesma, criando suas teorias e discursos, que expunha sua visão e emoção, era uma forma de desabafo, de uma alma marcada pelas seqüelas da vida.

Estamira critica o sistema político e social, que impõem regras ao ser humano, para não ser considerado louco ou inapto ao convívio, o indivíduo submete-se aos padrões, visando ser aceito e considerado normal dentro das normas sociais. Em uma das suas afirmações, a nossa personagem expõe que os médicos são meros copiadores, sem personalidade própria, que não resolviam seus problemas psicológicos, apenas queriam sedá-la
. É interessante como Estamira se expressa diante das gravações demonstrando lucidez e muita tristeza, por tanto desperdício que os indivíduos e que é encontrado no lixão, e ao mesmo tempo como superar uma realidade insuportável de ser vivida por muitos indivíduos excluídos da sociedade.

Ela é contra a alienação do homem, critica uma suposta sociedade de controle, com estrutura para calar as vozes dos rebeldes, dizendo fazer o bem comum. Suas ideoloogias marcam quem as ouvem, pois vêem em suas loucuras, sábias palavras,que nos leva a repensar sobre bases teóricas, filosóficas e demais linhas de pensamentos que nos impõem, sem questioná-lasas executamos.

Contudo, ao analisarmos a trajetória da personagem, percebemos que sua loucura não lhe traz apenas conseqüências negativas, mas também demonstra resultado de conhecimento para essa realidade perturbadora. Conseguia expor o que pensava e sentia em relação ao que controlava as pessoas através de regras pré- estabelecidas. Ela é a realidade que pessoas sem estudo também são capazes de pensar, analisar e agir de forma contrária aos padrões do sistema. Seu exemplo é capaz de nos comover e ao mesmo tempo em que nos surpreende. Sua história é uma lição de vida, de força e superação, nos ensina a questionarmos, a construir e desconstruirmos certos padrões. Estamira é uma guerreira sem valor, uma sábia sem reconhecimento, tinha conteúdo, mas não havia quem lhe desse crédito, gritava ser sem ouvida, não tinha quem a deixasse falar o que pensava e o que sentia. Um dia deixou bem claro quando disse: “quem mora no lixão é esquecido pela sociedade”.


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